Segundo especialistas, conflito virtual é violento, desumano e antiético
O cenário é de desordem total. Não há energia, a água está acabando e a comida estocada já foi consumida. Enquanto o lixo toma conta das ruas, o trânsito corre sem regras. Os hospitais funcionam parcialmente, o metrô e os aeroportos estão empacados e uma operação bancária simples, como sacar dinheiro, está fora de cogitação: os sistemas foram derrubados.
O roteiro acima lembra ficções assustadoras que lemos ou vemos no cinema, como nos filmes Duro de Matar 4, A Estrada e Ensaio sobre a Cegueira. Apesar de ser um cenário bastante catastrófico, vivemos hoje uma era em que os sistemas informatizados de um país podem sofrer ataques e parar de funcionar. Esse caos já é colocado em prática e tem nome: guerra cibernética.
“Desde 2007, estamos vivendo os primeiros atos dessa guerra”, explica o coordenador de pós-graduação e professor do curso de relações internacionais das Faculdades Rio Branco, Gunther Rudzit. Naquele ano, o sistema de defesa aéreo sírio foi totalmente neutralizado por meio de imagens de radares falsas, relembra o diretor do Cetris (Centro de Tecnologia, Relações Internacionais e Segurança), Salvador Raza. Essa neutralização permitiu que a aviação israelense bombardeasse as instalações do reator nuclear que Damasco vinha desenvolvendo com o apoio da Coreia do Norte.
Também em 2007, a Rússia realizou um ataque sofisticado no sistema bancário da Estônia: utilizando milhares de computadores, foram gerados milhões de acessos falsos, ao mesmo tempo, a caixas eletrônicos, a agências e a redes de pagamento por cartão de débito e crédito. O sistema ficou tão congestionado que ninguém conseguiu utilizá-lo, lembra Raza.
Diferentemente de um confronto militar, a guerra cibernética é silenciosa. Seu perfil é o de uma competição violenta, antiética (na maior parte das vezes), desumana e com graves consequências econômicas, descreve Raza.— Ela nada mais é do que a utilização dos recursos de computação e comunicação para se conseguir uma informação ou até mesmo para destruir, modificar, alterar ou corromper os equipamentos e sistemas de outros países. No contexto atual, em que a internet é utilizada em todos os serviços essenciais, como bancos, polícia, hospitais e aeroportos, a guerra cibernética é uma ameaça presente.
Zona cinza
O campo de batalha, portanto, é o espaço cibernético. Em uma analogia com a guerra convencional, Raza explica que as armas do conflito cibernético são os malwares (programa infiltrado em um computador com o objetivo de danificá-lo). Já as defesas são os firewalls (dispositivos encarregados de fazer a segurança do sistema) e os alvos são bancos de dados e equipamentos de controle. Se nas guerras tradicionais, por exemplo, uma bomba é jogada sobre uma hidrelétrica, na guerra cibernética, um malware é colocado no sistema que controla a hidrelétrica, o que faz com o que o próprio sistema de proteção se encarregue de destruir o alvo.
O Irã foi vítima dessa ofensiva invisível em 2010, quando descobriram que um worm (uma espécie de vírus), chamado Stuxnet, havia sido colocado nos computadores iranianos para danificar as centrífugas utilizadas para enriquecer urânio na unidade nuclear de Natanz. Estados Unidos e Israel foram acusados do ataque, o que nunca foi comprovado.
Esse caráter “sorrateiro” das ações cibernéticas expõe um dado alarmante: não existe um tratado internacional que regulamente as ações da guerra cibernética, uma vez que as questões referentes a ela são extremamente sigilosas e não é do interesse dos países divulgar os ataques, ressalta Rudzit.
— É uma zona cinza, sem regras. Nesse território de ninguém, quem ganha destaque é a espionagem, protagonista do mais recente escândalo mundial, após denúncias apontarem que os EUA monitoraram o Brasil, o México, a França, a Alemanha, entre outros países. A espionagem funciona como um meio para se obter informações preciosas para um ataque cibernético, explica Rudzit. — A espionagem é o início do processo de guerra cibernética. É quando você, intencionalmente, invade o sistema do outro para pegar alguma informação que não estaria disponível de outra forma.
A estratégia mais urgente, nesse caso, é prevenir ataques. O consultor em segurança digital e ex-membro do Anonymous (grupo de hackers ativistas), Alan Sanches, montou uma empresa especializada em identificar vulnerabilidades dos sites. Para ele, não há dúvidas de que o conflito por meio de computadores já começou. — Nós já estamos em guerra cibernética. Porém, muitos países não assumem o que fazem.
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Fonte: R7
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