A Secretaria Estadual de Segurança do Rio decidiu não criar novas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nos próximos sete ou oito meses. Nesse período, o comando das unidades realizará uma série de medidas para "salvar" o projeto. A avaliação da Polícia Militar é que casos como o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, 43, que desapareceu depois de ser levado por PMs para a sede da UPP da Rocinha, e tiroteios que têm acontecido no Complexo do Alemão abalaram a credibilidade do programa.
"As práticas do major Edson [dos Santos, ex-comandante da UPP da Rocinha e um dos denunciados pelo desaparecimento de Amarildo] destruíram a confiança dos moradores e precisamos recuperá-la", disse o comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas. Atualmente, há 34 UPPs, onde atua um efetivo total de 8.592 policiais. No fim do mês mais duas serão inauguradas: Lins e Camarista Meier, ambas na zona norte. Com o acréscimo, as UPPs terão 15% do efetivo da PM, de 60 mil homens. Depois disso, a polícia não pretende inaugurar novas unidades pelos próximos sete ou oito meses. Nesse período, os novos policiais militares que saírem dos cursos de formação serão encaminhados aos batalhões e não mais às unidades de pacificação das favelas, como vinha acontecendo até então.
SINAL VERMELHO
A Folha apurou, junto à secretaria de Segurança, que as unidades têm recebido classificações por cores. As que têm boa avaliação são indicadas pela cor verde. As que estão em situação de alerta, amarelo. E aquelas consideradas ruins são indicadas pela cor vermelha. Apenas duas UPPs mereceram classificação "verde": Dona Marta, na zona sul -a primeira UPP a ser instalada, em dezembro de 2008- e o Batan, na zona oeste. As favelas da Rocinha, na zona sul da cidade, e os complexos do Alemão e da Penha, na zona norte, ganharam classificação vermelha. No cargo há três meses -tomou posse depois do desaparecimento de Amarildo- o coronel apresentou ao secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, o diagnóstico da situação das UPPs e sugestões para preservar o programa.
Entre elas estão mudanças na abordagem de suspeitos. A maneira como agem os policiais nesse tipo de situação é a principal reclamação dos moradores das favelas onde há UPPs. "Está proibido que qualquer suspeito seja levado para as bases das UPPs", afirma o coronel Caldas. No caso Amarildo, segundo as investigações, o ajudante de pedreiro teria sido levado para a UPP da Rocinha e lá torturado até a morte por policiais. Alguns dos PMs que estavam em uma sala ao lado declararam ter ouvido a tortura. O corpo de Amarildo ainda não foi localizado.
Na avaliação feita pelo comando das UPPs, o coronel Caldas também constatou que alguns policiais circulam nas favelas sem identificação nos uniformes; outros usam veículos particulares em ações supostamente oficiais. Apesar disso, o coronel avalia como "pontuais" os problemas que enfrentou nestes 90 dias no comando das UPPs e que apenas "deu uma sacudida" no funcionamento do programa. "Estar numa estabilidade não significa dizer que está tudo bem. Pode estar estabilizado porque o policial está vendido, tem corrupção, o tráfico dá dinheiro, o bicho dá dinheiro", disse.
FATOR EIKE
As unidades pacificadoras da PM do Rio também têm sofrido com os problemas financeiros do grupo EBX, do empresário Eike Batista. Levantamento feito pelo comando das unidades constatou que há 38 carros parados por falta de manutenção. O trabalho era realizado pela OGX, a petroleira de Eike que entrou na Justiça com um pedido de recuperação judicial. Com a crise em suas empresas, Eike Batista retirou o apoio que dava às unidades pacificadoras. A manutenção agora passou a ser feita na própria Polícia Militar. Outro problema são as 10 UPPs que continuam funcionando em contêineres. "É preciso uma base para mostrar que o processo é definitivo", afirma o coronel.
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Fonte: Folha de S.Paulo
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